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"Aquí tienen su casa"

SalaCarta desde Cuba da Ir. Eduarda Barata!!!!

"Queridos Todos:
Uma vez mais, peço desculpa por estes “comunicados” generalizados: é a forma de chegar a variadas pessoas e de ir contando um pouco da vida por aqui."

Desde a última vez que escrevi já passou mais de um mês e, com ele, tanta e tanta coisa. Nessa altura estávamos em Havana onde chegamos a Ana e eu no dia 25 de Junho e de onde saímos no dia 28 de Junho já com a Martha, rumo a Santa Clara, sede da província de Villa Clara. Agora já estamos em Caibarien, centro Norte de Cuba.

Tanta gente boa que fomos encontrando ao longo deste caminho!

Por exemplo, três jovens padres que encontramos na casa sacerdotal em Havana, todos eles espanhóis, pertencentes a Fidei Donum, um organismo eclesial que possibilita aos sacerdotes diocesanos partir para missões. Um deles está aqui em Cuba e os outros dois, amigos e conhecidos destas andanças, vieram visitá-lo enquanto esperam o visto de entrada nos países para onde partirão. Homens simples, discretos, alegres, em quem se notava algo diferente.

O bispo, Monsenhor Arturo González, é um encanto de pessoa: alegre, amável, afável, atento, delicado, cheio de pormenores, discreto...) e os dois colaboradores que o acompanharam até Havana e que depois ficaram connosco dois dias, resolvendo algumas coisas enquanto esperávamos que a Martha chegasse, são homens de uma delicadeza, uma atenção, uma proximidade e ao mesmo tempo uma discrição enormes e de quem ficamos amigas.

Em Santa Clara estivemos em casa das Servas de S. José desde o dia 28 de Junho até dia 4 de Julho, de onde saímos para Caibarien. Acolheram-nos como se fossemos da “família” e verdadeiramente sentimo nos em casa! Aqui em Cuba há uma expressão que a ouvimos pela primeira vez quando estas irmãs nos abriram a porta de sua casa: “Aquí tienen su casa” e que, desde então, não há dia em que não a escutemos da boca das pessoas de Caibarien (os caibarienenses). Para mim foi como um ir chegando verdadeiramente àquela casa pela qual fomos aguardando ao longo de oito anos.

Este percurso, em Havana e em Santa Clara, foi como um estágio de iniciação e aprendizagem da realidade cubana, em círculos que a pouco e pouco se foram apertando. Em Havana conhecemos um pouco da cidade e da zona turística (Habana Vieja) e pudemos sentir a diferença entre as duas. Guiadas pelos nossos fiéis amigos, fomos procurando algumas coisas que faltavam para a nossa casa. Com eles fomos tendo uma noção do que é procurar aquilo que se necessita, muitas vezes não encontrar e, sempre, ter a dificuldade de poder pagar. Eles foram-nos falando da desproporção entre os salários e os preços dos artigos que se vendem nas chamadas shoping, o nível de vida da população e a dificuldade de cada dia prover ao sustento da família. O bispo teve o detalhe e a preocupação de nos dar a conhecer os diferentes organismos eclesiais com sede na capital: Nunciatura Apostólica e Conferência Episcopal Cubana, onde funcionam vários serviços pastorais nacionais. Fui-me apercebendo da enorme solidariedade que se vive em igreja através do apoio que desde aqui se dá a todos os que depois estão mais “no terreno”. Estes espaços são um pouco como a casa de todos.

Em Santa Clara, com as irmãs, o círculo apertou-se um pouco, pois aproximamo nos mais da vida quotidiana. Estas irmãs nunca saíram de Cuba. Uma delas, espanhola, vive cá há mais de vinte anos. Pudemos partilhar da sua vida, da sua oração, da sua mesa e dos seus trabalhos apostólicos. Também acompanhámos alguns padres que se deslocavam a pequenas povoações para as celebrações dominicais. Assim fomos aproximando-nos um pouco a diferentes tipos de realidade (cidade de Santa Clara, bairros, zonas rurais extremamente pobres) e fomos também conhecendo a Igreja. Além disso, tivemos a sorte de por várias vezes podermos acompanhar o bispo e, assim, percorrer quase toda a província de Villa Clara. Pudemos dar-nos conta das inúmeras igrejas que se encontram em obras de restauração (pouco a pouco a Igreja vai recuperando os templos que outrora foram confiscados); pudemos também aperceber-nos da dificuldade de que as obras progridam a bom ritmo por falta de materiais. Ao longo destes caminhos fomos conhecendo sacerdotes, religiosos e leigos que são peças fundamentais nas comunidades locais. Deste modo, a diocese foi deixando de ser um mapa para ser uma realidade viva com paisagens e rostos.

casaNo dia 4 de Julho, depois de celebrarmos a eucaristia na capela da cúria episcopal em Santa Clara e de tomarmos o pequeno-almoço com o bispo, chegamos a Caibarien, ao bairro (aqui chamado reparto) Van Troi, acompanhadas por dois carpinteiros que trabalham no departamento de obras e restauração da diocese. Vinham para terminar alguns trabalhos de carpintaria: colocar as cabeceiras das camas e as mesinhas de cabeceira. Com eles ficamos a saber que todas as portas e armários da casa foram feitos à mão, por eles! A casa é um encanto: ampla, alegre, muito simples, discreta, cómoda. Tem quatro quartos, todos com casa de banho (sempre pensando na missão, P. Arturo diz que vindo a correr de algum lado e de passagem para outro, não há que estar à espera para tomar um duche), uma sala, um hall de entrada, cozinha, despensa e um espaço exterior agradável onde lavar roupa e estender. Temos vizinhos, mas não estamos em cima de ninguém. A casa tem privacidade e encontra-se situada nas traseiras e no espaço da igreja Nossa Senhora da Caridade.

Aqui tínhamos à nossa espera o senhor que durante cinco anos guardou a obra e os materiais. Aos poucos, foram chegando pessoas da comunidade para nos saudarem e ajudarem na instalação. Ao fim da manhã, apareceu um dos motoristas do bispo, trazendo um enorme e muito bom almoço e algumas provisões para a nossa despensa! Aos poucos fomo-nos instalando e vamos conhecendo pessoas, fazendo visitas e sendo visitadas. Todos os dias alguém nos traz alguma coisa: arroz, sal, fruta, um doce, pão... Penso que faz parte das boas-vindas, mas também da preocupação e solidariedade do povo cubano.

As pessoas são simples e muito acolhedoras e estão muito agradecidas pela nossa vinda. Sabem que ainda não temos a caderneta do racionamento e, com ela, a possibilidade de assegurar a compra de alguns mantimentos. Também fomos conhecendo pessoas que durante meses passaram a noite numa guarita aqui no recinto da igreja e da casa, para guardarem a obra e os materiais. De dia trabalhavam e ao fim da tarde vinham para cá. As esposas traziam-lhes o jantar e daqui iam para o trabalho. Cada coisa nesta casa custou um enorme esforço económico e de encontrar (frigorífico, panelas, candeeiros para as mesas de cabeceira...), materiais para as obras, tintas, madeiras... Só Deus sabe e pode verdadeiramente recompensar.

CaibarienCaibarien é uma cidade agradável: ruas amplas, muita luz (é um porto de mar). É fácil de nos orientarmos porque as ruas estão dispostas em quadrado, como a Baixa de Lisboa. Percorro-as bastante para procurar comida. Não é que não haja, mas é preciso saber onde encontrar. Por vezes há coisas que escasseiam, mas depois aparecem e aí há que estar atenta e ir procurar. Comemos bem e variado, graças a Deus! Carne de porco muito saborosa, salsichas de frango, peixe.

Sobretudo comemos uma massa que se faz com peixe e a que chamam pulpeta e que se pode comer frita, guisada, cozida... Muita fruta: manga, goiaba, abacate, ananás aos montes, bananas de todas as qualidades e para todas as finalidades, coco seco que depois de aberto se rala, mamei rojo, papaia, anoncillos… Vende-se  goiabada, como no Brasil, e torrão de amendoim (bem bom!). Os cubanos fazem doce de tudo; normalmente terminam a refeição não com fruta mas com doce, e  a fruta acaba em batido para sumo ou em batido com leite. O pão é de duas qualidades: umas bolas adocicadas e outro como se fosse uma barra; este é um pão muito ligeiro e que comparativamente com outras coisas é caro.

Alguns produtos podem encontrar-se em “lojas” do Estado ou em particulares. Aqui toda a gente vende alguma coisa, para poder arranjar uns trocos a mais e assim fazer face às despesas. Quer num lado quer noutro, a moeda é o peso cubano. Nas shopping, lojas do Estado vendem se produtos em pesos cubanos convertíveis (cuc), também chama das lojas de divisas: um sabonete, uma pasta de dentes, papel higiénico... tudo a preços incrivelmente altos, aos quais não chegam os salários cubanos. Para fazerem uma ideia: quatro rolos de papel higiénico custam tanto como meio quilo de bifanas de porco.

O café é óptimo, forte e espesso. Em cada casa em que se entra oferecem café -isso sim, carregado de açúcar. É bom, e o açúcar em a propósito para o calor.

Bom, por hoje fico por aqui. Outro dia conto mais coisas: a inauguração e bênção da casa, a missão diocesana...

Um beijinho grande,

Eduarda Barata, aci

 

 

 

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