A Cristina Dávila é monitora aci em Madrid, antiga aluna do Colégio de Martínez Campos. Desde Janeiro, está no Ruanda a colaborar com o Serviço Jesuíta aos Refugiados. Escreveu uma carta em que conta a sua experiência.
Olá a todos! Finalmente escrevo como deve ser. Desculpem o atraso… Comecei esta carta muitas vezes, mas entre umas coisas e outras, não a acabei até agora. Além de que tenho tido um problemita ou outro com a Internet… Na realidade, não sei muito bem por onde começar… tentarei ser o mais clara e precisa possível para não vos aborrecer demasiado. A PARTIDA… Recordo os meus últimos dias em Madrid, o Natal… as malas por fazer, tudo eram pressas, nem me pude despedir de muitos de vocês… No dia 3 de Janeiro, de madrugada, o Alberto e eu saímos rumo a Kigali, com escala em Bruxelas. Todo o dia de avião. Chegámos ao Ruanda às 19:50. Lá nos esperava a Irene, a Escrava portuguesa com que estou. Nessa noite ficámos a dormir em Kigali, na casa dos Jesuítas. No dia seguinte pudemos conhecer melhor a cidade. Saímos cedo em direcção a Kibuye e pelo caminho não deixava de olhar pela janela. Tudo me lembrava um pouco a viagem que fiz o ano passado ao Quénia. Tentava observar até ao mais pequeno detalhe. Pensei: “Já estou em África. Cheguei ao meu destino e não há marcha atrás…”
Muito calor, muita gente a andar pela estrada, carregando coisas à cabeça, miúdos pequenos com os irmãos às costas.. Uma paisagem maravilhosa, colinas e mais colinas de diferentes tonalidades de verde… Por fim, entre elas, apareceu o Lago Kivu… Kibuye já estava perto! CHEGADA A KIBUYE… Vivo com a Irene numa casinha com umas vistas incríveis para o lago e com as montanhas do Congo em linha recta. Na verdade, as condições em que vivo são óptimas: água fria corrente (apesar de cortada algumas horas ao dia), electricidade, gás para cozinhar (eheh… apesar de ainda não saber grande coisa). Agora dou muito valor à máquina de lavar roupa, porque aqui não a tenho e passo eternidades a esfregar e esfregar.
Chegámos numa Sexta ao meio dia, comemos alguma coisa e fomos para o escritório, que está ao ladinho do lago (sai-se da porta, atravessa-se a estrada e já se está na margem a apanhar sol…) Nesse dia andava um bocadinho perdida (não que isso seja algo estranho em mim), não parava de observar e tentar perceber onde estava. À minha volta, tudo eram ‘morenitos’ (que não deixavam de olhar para mim) e sentia-me uma intrusa. Eu era a esquisita, que não encaixava na cena. Aproveitámos o Sábado para ir a uma ilhota que se chama Amahoro (“Paz”). Fomos de barco e, para variar, ainda por cima amenizámos a viagem. Ali comi a minha primeira brochette de poisson.
No Domingo fomos de manhã ao campo de refugiados. À medida que se vai chegando, vê-se uma colina repleta de casinhas muito coladas umas às outras. E vamos encontrando gente pelo caminho que nos olha fixamente porque somos “brancos”. Quando se chega, aproximam-se todas as crianças, e não param de dizer mzungu, mzungu (“branco, branco” em Kinyarwanda). À Irene, muitos já a aconhecem. Propus-me que daqui até ao meu regresso todos aprendam o meu nome (meta difícil, porque são umas 18.000 pessoas!). Demos uma volta pelas escolas primárias e pela rua principal. Acabámos com uma fileira de miúdos atrás que nos seguia para todo lado. O campo impressiona mesmo. E mais ainda quando o vamos conhecendo, quando vamos fazendo parte do seu dia a dia. “ACOMPANHAR, SERVIR E DEFENDER” Na Segunda, 7 de Janeiro, o Alberto partiu para o Burundi e eu regressei ao campo.
Estávamos no início do ano escolar! Tudo estava povoado de miúdos com uniforme azul (uns 4.600). Passei por algumas aulas da primária e estavam todos sentaditos com os seus cadernos à espera do professor. A língua que falam é o Kinyarwanda. É um idioma muito difícil, mas pouco a pouco vou aprendendo as saudações (até comprei um diccionário!). Aliás, a língua oficial é o francês, mas os mais pequeninos ainda não o sabem lá muito bem. Nesses primeiros dias também estive um bocadinho pelo escritório, conhecendo a equipa (professores, trabalhadores…) e com uma que outra reunião em francês e inglês (que estafa!). No fim de semana seguinte fui à capital (Kigali) porque tínhamos uma reunião de toda a equipa do JRS Ruanda (o JRS, aqui, tem projectos em dois campos de refugiados e encarrega-se sobretudo da educação). Outra das coisas que mais me impressionou nestes dias foi ter podido acompanhar a equipa que trabalha com os mais vulneráveis do campo. Graças a isso pude descobrir o que esconde aquele labirinto de “casas”.
A equipa que trabalha com os mais vulneráveis dedica-se especialmente, a visitar as pessoas idosas que vivem sós ou estão doentes; a órfãos e órfãs; mães adolescentes… cada dia vão a uma zona diferente, fazendo visitas e vendo o que faz falta. É incrível como, apesar das situações difíceis e duras que se vê, o que fica é um sentimento de alegria e a vontade de fazer muitas coisas para ajudá-los, pra tentar que passem a vida o melhor possível. E com o simples facto de que eu os fosse visitar, já ficavam tremendamente contentes. Assim que chegávamos, puxavam de cadeiras e bancos para nos sentarmos. Muitos queriam arender o meu nome… e até o escreviam! Outros queriam partilhar comigo o pouco que tinham para comer…
No Domingo seguinte fui à minha primeira Eucaristia no campo. A Igreja estava cheia de gente que não parava de cantar e de bater palmas… Ao fim, fui “apresentada” à Comunidade e senti-me muito acolhida por todos. Também andei a ajudar a organizar um novo projecto do JRS. Consiste num “Centro de Promoção e Protecção de Jovens” (actualmente baptizado como Centro Rafaela Maria!!!!) . Terão formação comum em: francês, matemática, inglês, informática, electricidade para o rapazes e economia doméstica para as raparigas. Está direccionado sobretudo aos órfãos, que já abandonaram a escola há muito e não receberam nenhuma outra formação, às mães adolescentes… Eu estou com parte das raparigas, coordenando-as um bocadinho. Em “Economia Doméstica” recebem aulas que vão desde a agricultura e criação de animais (coelhos, galinhas) até à costura, passando por temas de puericultura e de direitos humanos. E claro, para isso é necessário estar ao corrente de onde comprar coelhos e galinhas, pendente dos legumes e de que cresçam… tenho aprendido muitíssimo!
Também andámos a fazer a motivação para o Centro (pendurando cartazes em Kinyrwanda por todo o campo), as fichas de inscrição, a selecção e verificação de rapazes e raparigas, preparando um teste diagnóstico, tendo reuniões com pais e responsáveis para que se responsabilizem pela vinda dos seus filhos às aulas, já que aqui é do mais normal encontrar miúdos e miúdas com o uniforme do colégio que andam a buscar água para as suas casas, ou a apanhar lenha para cozinhar, ou a cuidar dos manos pequenos… A ideia deste projecto é que, para além de oferecer formação, estejam “protegidos”. Ou seja, que não andem sós pelo campo e que encontrem nos formadores pessoas de confiança com que possam falar, sobretudo as raparigas, para poderem denunciar qualquer acto de violência e mau trato. Por isso, tratarei de estar com elas nas aulas, e procurarei momentos para fazer dinâmicas, animá-las, estimular as suas capacidades… No outro dia, fizemos uma dinâmica de conhecimento. Também lhes falei de Santa Rafaela e cantámos o “Parabará”!!! Já as conheço a todas, aprendi os seus nomes e apelidos (e olhem que são esquisitos!) Estão muito contentes –os rapazes também- com a formação.
Virá gente de outras ONGs que há no campo para dar-lhes pequenas palestras sobre algum tema em concreto. Começámos por uma que se encarrega da Saúde no campo. Falará de temas como a maternidade, SIDA, planificação familiar… Para além deste novo projecto, comecei a dar aulas de inglês a pequenitos do 6º ano (só nesse ano são 600 crianças). Tentarei estar em três turmas para ajudar um pouco (do que me lembre agora, porque com tanto francês tenho o inglês esquecido!) pois no fim do ano têm um exame nacional. Já me vão conhecendo. Cada manhã, quando chegamos com o carro, todas as crianças se aproximam e já dizem o meu nome e me saúdam. Aqui há uns tempos fui buscar uma professora a casa, que vivia muito longe (na parte de baixo da colina) e até ali uma menina me chamou “Cristina!”
Noutras ocasiões, enquanto estava de pé a falar com alguém, vieram miúdos muito pequenos a correr, travando nas minhas pernas que abraçavam enquanto diziam mzungu! O meu francês vai melhorando pouco a pouco, Também comecei a ter aulas particulares para reforço. Aqui a vida é muito tranquila, mas cansamo-nos muito porque o campo está no alto de uma colina (a 16 km). Levanto me todos os dias às 6 da manhã. Regresso a casa às 4 da tarde (supondo que não vou ao escritório). E vou para a cama às 10 (ou antes, se pode ser). Em relação ao clima, julguei que estivesse muito calor, mas agora creio que estamos na época das chuvas curtas, e muitas vezes até tenho frio. Na última semana de Janeiro estive no Burundi numa sessão de formação com o JRS. Juntámo nos todos os “noviços” da Região dos Grandes Lagos (Congo, Burundi e Ruanda). Também aproveitei para estar com o Alberto (que nos deu formação sobre Finanças), conhecer um bocadinho de Bujumbura e meter os pés no Lago Tanganica (não tomei banho para evitar encontros imediatos com algum crocodilo ou hipopótamo).
E que dizer das “experiências africanas”! A verdade é que apesar dos insectos e bichos variados (mosquitos, aranhas, lesmas na cama, sapos, ratazanas…), das tempestades cheias de relâmpagos e trovões fortíssimos, dos terramotos (dos quais às vezes nem me apercebo) e das viagens em “aviãozinho” entre país e país… até agora, tem corrido tudo bastante bem.
Irei contando mais coisas. Só queria dizer que é um privilégio enorme estar aqui e que gostava de trazer a cada um de vocês aqui para testemunharem o que se vive. Não é só aqui que há gente a sofrer e com vidas difíceis. Aí também há gente que não vive nada bem. Por isso… coragem! Rezo por cada um, que o Jesusinho cuide de vocês por mim e que vos dê força para, como diz Santa Rafaela , fazer com que os que nos rodeiam tenham uma vida feliz. Não me custou muito perceber que todos estes refugiados não perderam a ESPERANÇA. Apesar de viverem assim há doze anos, continuam com o sonho de regressar à sua terra, ao Congo. Por isso, como diz a canção… “Adelante por los sueños que aun nos quedan. Adelante por aquellos que están por venir…” Cristina Dávila |