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Quando cheguei do Ruanda no fim do mês de Março, onde estive quase dez dias, li na revista Passos de Março 08, que “Todos temos necessidade de pessoas que nos provoquem a ponto de nos fazer desejar a vida que vemos neles como fascinante” (Julian Carrón, p.25). Percebi como o tempo que vivi no Ruanda, na companhia da Irene, na casa do Jesuit Refugee Service, na Semana Santa, e acompanhada pelas duas amigas que tinham ido comigo, estava aqui descrito. (Contém slide show com entrevista em inglês)
A vida da Irene é uma vida totalmente dada. Experimentei um acolhimento, uma alegria por nos ter em casa dela, uma atenção e delicadeza de quem em todos vê Aquele que dá sentido à sua vida! E para quem vive assim, nem o lugar nem as pessoas são determinantes. No campo de refugiados, onde a Irene passa a maior parte dos seus dias, a sua atitude é igual. Quando chega ao campo, ao volante do jipe do JRS ouvem-se ao longe as crianças a gritar “soeur Ireni!”. Um grito de alegria, de quem reconhece nela uma presença diferente – alguém que não é da mesma cor (é uma das únicas brancas no campo), nem fala a mesma língua -, mas uma presença que os faz querer estar com ela, tocar-lhe! E a Irene deixa-se tocar por eles, ri-se, faz gestos, brinca com eles. Mas a vida da Irene e do JRS no campo é muito mais do que isto. São todas as aulas da pré-primária, da infantil e do ensino secundário onde ensinam diariamente mais de 8.000 crianças. Depois há também as “escolas profissionais”, para um número menor de jovens, cerca de 50, onde as raparigas aprendem Economia Doméstica, e os rapazes Electricidade. Também aqui a preocupação com a dignidade humana é primordial, vejam-se os critérios de selecção dos formadores e professores – competentes mas também aqueles que com esta ocupação se tornem “mais pessoas”, que “ressuscitem” das suas Páscoas – pois todos têm no seu corpo as feridas do genocídio ou das guerrilhas. Há ainda o trabalho com os vulneráveis – os mais sós e pobres no campo. É um trabalho de enorme dedicação a cada um. Dão-lhes alimentos, roupas, e companhia! Tornam realidade a promessa de Cristo: Eu estarei sempre convosco! Outra das responsabilidades do JRS no campo é a assistência religiosa, a coordenação do serviço de catequese e garantir a celebração regular dos sacramentos. Foi nesta “componente” que mais acompanhámos a vida do campo, pois como estávamos na Semana Santa participámos nas cerimónias todas que aconteceram no campo. E que privilégio foi! Pareceu-me que passei a Páscoa com os preferidos de Cristo. Aqueles em quem a sua Graça já abunda e por isso, apesar de todas as circunstâncias, a sua confiança não vacila e está unicamente posta no Senhor! Aqueles que parecem já não precisar de luz para caminhar – como nós precisávamos quando saíamos da Igreja do campo, já de noite -, porque já têm a Luz! No Ruanda, no campo, há um permanente grito que é impossível não ouvir. Que não nos pode deixar iguais ou indiferentes. Um grito silencioso de pessoas, muito amadas por Cristo, mas esquecidas pelos homens, sem terra, aparentemente sem solução para o seu futuro. Este grito ainda é mais violento quando olhamos à volta do campo e vemos uma paisagem deslumbrante, linda, que parece não poder conviver com o drama ali vizinho. Percebo porém que a beleza faz todo o sentido ali ao lado para que o seu grito seja maior do que o do sofrimento e nos lembre de que no fim, a beleza, Cristo, vence sempre! Margarida Manaia |