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De passagem por Portugal, a Irmã Irene Guia deu uma entrevista ao essejota.net acerca do seu trabalho com o JRS nos campos de refugiados dos Grandes Lagos. Já de regresso a África, agora desde Goma, na República Democrática do Congo (ver slideshow...) escreve-nos a primeira carta, em que descreve como foi o Tríduo Pascal junto aos que comungam profundamente da Sua cruz.
9 de Abril 2009 Quinta-feira Santa
Cheguei a Goma, capital da Província do Kivu Norte na República Democrática do Congo, há pouco mais de uma semana. Não houve um único dia que não fosse passado, na sua grande parte, num dos cinco campos de deslocados que estão ao longo duma estrada nos arredores da cidade. O número de deslocados é impressionante. Fala-se de 250.000 nesta zona do Congo. Mas a impressão da grandeza do problema da deslocação forçada de tanta gente, por causa dos conflitos armados e das atrocidades que se cometem, e que parecem ser o pão nosso de cada dia, fica muito aquém da magnitude do drama e da violência da história pessoal que cada um destes deslocados tem para contar! Por enquanto, as histórias que tenho ido ouvindo não me foram contadas directamente por aqueles que as viveram. Estou aqui há pouco mais de uma semana. Ter a honra de “ouvir” o coração do outro leva o seu tempo… acontecerá, talvez, quando a confiança mútua sustenha a relação… É enorme o sofrimento que presencio cada dia… são brutais os relatos da vida de cada um dos que vou conhecendo… E apesar de sentir a enorme responsabilidade de dar voz a tudo isto, não me tenho sentido capaz de o fazer, de escrever sobre o que toco com todos os meus sentidos. Tenho-me experimentado incapaz de ser fiel a todas estas pessoas que vou conhecendo no relato que possa fazer do que passaram e do que vivem… Um abismo enorme entre este sofrimento que toco e a capacidade que tenho para o “transmitir”, com justiça, a quem não teve a graça e honra de estar ao seu lado e do seu lado, como eu imerecidamente tenho… A sensação de que, para lhes ser fiel, preciso de tempo para “elaborar” internamente o que vivo. Mas, hoje, acordei com a sensação de que devia começar a tentar… Hoje, quinta-feira santa, o nosso Pão parte-Se e reparte-Se para salvação do Mundo… Toco e não tenho qualquer dúvida sobre a estreita ligação que existe entre estas pessoas e Cristo! Entre a Páscoa que são forçadas a padecer e a Páscoa d’Aquele que quis entregar-Se a ela livremente, em fidelidade de Coração ao Pai e à Humanidade. Para que tivessem Vida todos aqueles que se encontram aprisionados na Morte!... Para que todos nós tivéssemos a Vida que nos possibilita e nos leva a querer vencer qualquer situação ou forma de Morte com a nossa própria vida! …Bastaria que levássemos realmente a sério a ressurreição do Senhor e o Seu Reino... Quanta Vida recebida que pode, desgraçada e infelizmente, “morrer” em mim! Hoje, Quinta-feira Santa, com a imagem de Jesus ajoelhado aos pés de um de nós, começo. As tendas, ou cabanas, em que vivem todas estas pessoas, são constituídas por uma frágil estrutura de varas, muito simples, cobertas (com sorte!) por um plástico distribuído pelo ACNUR. O solo está completamente coberto por milhares de pedras feitas da lava do vulcão que entrou em erupção em 2002. O que significa que o chão dos abrigos é completamente irregular. Antes de ontem, participei na construção de uma destas cabanas para uma das senhoras de muita idade que é acompanhada pelo Serviço aos Vulneráveis do JRS que coordeno. A primeira coisa a fazer é tentar retirar o maior número possível destas pedras da pequena área (entre 1,5mx2m e 2mx3m) que constituirá a “casa”, onde podem chegar a viver até 8 pessoas! As pedras feitas de lava são constituídas por milhentas arestas, afiadas como lâminas de barbear! A cada pedra que retirei, senti a proximidade dos inevitáveis pequenos golpes, que pareciam não existir para as mãos do Joseph e da Monique (jovens deslocados que colaboram connosco como voluntários)! Para fazer a cama, escolhem-se as pedras mais planas e com menos arestas que se possam encontrar, encaixando-as umas nas outras até que se assemelhem a um leito com uma altura de 20cm. Sobre este “leito” esticam-se velhos sacos de plástico. Os mais afortunados põem uma finíssima espuma ou manta por cima. Uns trabalhávamos com as pedras, outros iam armando a frágil estrutura de varas sobre a qual se estica o plástico através de pesos, criativamente criados com… pedras! Enquanto trabalhávamos, sob um sol implacável, o espírito deste estranho grupo formado por gente “desgraçada” e “agraciada” foi crescendo em forma natalícia. Quer dizer, dando vida e provocando um sorriso no rosto daquela senhora de tanta idade que tinha mais era de viver os seus últimos anos em paz, em segurança e junto dos seus! Uma força e alegria nos uniam a todos no meio de um ambiente de absoluta desolação. E ao ir levantando este outro tipo de “gruta” – porque, também para estes não há lugar na hospedaria…-, algo entre nós nos unia, como se fosse possível sentir e gostar aquela “Paz na terra” que Deus tanto ama e a única que, sem dúvida, sacia o coração humano. Ou, celebrando o dia de hoje que marcou definitivamente a História, de joelhos, confirmávamos que felizes seremos se fizermos o mesmo que Ele fez naquela noite santa e toda a Sua vida. O JRS pediu-me para dirigir o seu Serviço aos Vulneráveis aqui em Goma. Entre tantos outros programas que o JRS implementa nos campos de refugiados ou deslocados à força, sobretudo o que se refere à educação, talvez este seja o mais carismático. O JRS quer acompanhar, servir e defender as pessoas mais vulneráveis dentro desta multidão de gente, toda ela, vulnerável. Significa estar em relação permanente com os que se encontram em situação de extrema miséria, pobreza, sofrimento, solidão! E, em seu nome, estar em relação permanente com as instituições que gerem estes campos para que a assistência que lhes é devida esteja garantida e para que, juntos, possamos encontrar uma forma mais durável de lhes aliviar o tremendo sofrimento em que se encontram. Pessoas idosas totalmente sozinhas, órfãos, mães adolescentes, mulheres violadas, pessoas de todas as idades portadoras de deficiência, pessoas psicologicamente muito afectadas e traumatizadas pelo vivido. Serão estas pessoas que, agora, atrairão o meu olhar e vida no dia-a-dia. Junto ao problema da precariedade de habitação, a falta de alimento é a grande preocupação para toda a população. Do Programa Alimentar Mundial, recebem por pessoa por mês: 6kg de farinha de milho; uma tigela de feijão (que eu diria não chegará a 1Kg); 750mlt. de óleo vegetal; um punhado de sal. Aqui passa-se fome… Estamos presentes, como creio que já disse, em 5 campos (65.000 pessoas). Talvez, dentro de pouco tempo, consigamos entrar noutro campo, na margem duma estrada que leva a Rutshuru, uma cidade e distrito bastante martirizados pela guerra. Esta sensação do tremendo privilégio que é estar aqui não me abandona… imploro ao Senhor que me mantenha “de joelhos”, sempre. 10 de Abril 2009 Sexta-feira Santa
Cada campo está dividido por blocos. Por sua vez, cada um destes blocos é constituído por 50 a 70 cabanas. À frente, um chefe que representa os que ali vivem junto à comissão do campo, toda ela constituída por deslocados. É esta comissão que, através dos seus membros, representa a população deslocada diante das autoridades e das ong’s que os assistem. O que agora andamos a fazer em cada campo é visitar todos os blocos para ter a certeza de que não nos escapa nenhuma pessoa (idosa, adulta, criança) que esteja em situação dramática. No outro dia, aproximou-se de nós uma rapariga, com os seus 18 anos, apoiada em duas muletas. Coxeava bastante e, de longe, podíamos ver como a perna esquerda não possuía nenhuma força. Assim, de longe, parecia um caso de paralisia infantil. Em swahili, os voluntários que me acompanhavam (também eles deslocados), perguntaram-lhe o que é que ela tinha. Ela, sem dizer uma única palavra, levantou o pano que a cobria até aos joelhos e eu reparei como ambas as pernas estavam cheias de cicatrizes redondas, todas elas com, mais ou menos, um centímetro de diâmetro. E antes que alguma razão para aquelas cicatrizes pudesse chegar à minha mente, um dos voluntários virou-se para mim e disse: “balas”. Foi como um baque dentro de mim, por duas razões: pela brutalidade da guerra e das inúmeras vítimas inocentes que aquelas marcas representavam; e pela normalidade como qualquer um desta zona as reconhece, como se fossem marcas de varicela! Antes de ontem, uma rapariga de 16 anos deu à luz um rapaz! Está sozinha no campo. Veio fugida de Massissi no meio de mais um grupo que partiu de mãos a abanar, quando a sua aldeia foi alvo de um impiedoso ataque. Há nove meses atrás, aventurou-se a ir procurar lenha para poder cozinhar. Um homem ao vê-la, só e indefesa, violou-a. Antes de ontem deu à luz um rapaz. Coincidiu que eu estava no campo poucas horas depois e fui visitá-la ao dispensário. O seu rosto cansado resplandecia de alegria e ternura! Não tirava os olhos do bebé e via-se que estava contente que o tivéssemos ido conhecer. Lançava-nos uns olhares rápidos, sorria, mas o seu olhar estava completamente fascinado e centrado naquela criança que era sua! Dois dias depois, visitei-a numa cabana em péssimas condições, onde vive por empréstimo. Ali estava ela, sentada sobre aquilo a que dão o nome de cama, com o recém-nascido ao lado. O seu olhar mantinha aquele amor e ternura que eu tinha visto antes. Com humildade, digo-vos que a imagem que me veio ao coração foi a de Maria junto ao pequeno Jesus na gruta de Belém. Perguntei-lhe se já tinha nome para o menino. Respondeu-me sorrindo: “Maísha”. Olhei para a voluntária que me acompanhava e ouvi como ela me explicava: “Em francês significa: a vida”. Quando, nesse dia, regressávamos a casa e eu ia sentada no banco da frente do carro, não fui capaz de controlar alguma silenciosa lágrima: o amor duma mãe conseguiu converter em “maísha” o fruto da violência bestial. Uma outra rapariga, com 21 anos, chegou há duas semanas a um dos campos. Vinha fisicamente desfeita e psicologicamente muito ferida. Pouco a pouco foi capaz de contar o que lhe tinha acontecido: foi apanhada por um grupo de homens armados que a levaram consigo. Sete foram os que a violaram… passados alguns meses, acabou por conseguir fugir, caminhou sozinha durante semanas e, finalmente chegou ao campo. Encontrámo-la num dos hangares que alojam as últimas pessoas que vão chegando, até que sejam registadas para poderem ter uma cabana e algo para comer. No dispensário fizeram-lhe todo o tipo de análises… é portadora de HIV… O seu rosto é lindo! Doce! Com uma expressão de extrema tristeza e desolação… a vontade de amá-la, devagar e sem pressão, inundou, inunda o meu coração… será estúpido da minha parte desejar que, quem sabe, se passar algum tempo com ela, todos os dias, lhe possa saber a algo de “colo” que a possa fazer sair, ao menos por momentos, da dor em que se encontra fechada? Nunca estive tão mergulhada num destes mares imensos de tremendo e absurdo sofrimento que existem por esse mundo fora! São milhares as pessoas que se encontram aqui e são milhares as correspondentes histórias de sofrimento atroz que as trouxeram até este lugar. Avós com netos muito pequeninos porque os pais morreram… órfãos totalmente sozinhos… histórias de guerra, de violações, de violência gratuita, do pior que o ser humano é capaz de fazer ao seu próximo… E sigo sem conseguir racionalmente explicar, a força e a esperança que saem de mim quando me encontro na sua companhia… ou será, na Sua companhia? Hoje, Sexta-feira Santa, o meu coração está cheio de nomes crucificados e quando na adoração da Cruz, durante celebração da morte do Senhor, contemplava como cada um se aproximava e beijava as mãos, o costado e os pés de Cristo pregado na cruz, entendi que nunca chegarei a conhecer uma tal comunhão com Ele, como aquela a que assisti! 11 de Abril Sábado Santo
Se bem me lembro, há uns anos atrás saiu um livro que se chamava “Gente de Viernes Santo”, cujo autor penso que era Sheila Cassidy. Creio que falar dos refugiados e dos deslocados é falar de “Gente de Sábado Santo”. O que tenho vivido nestes dias tem cor de Sábado Santo. 65.000 pessoas deslocadas, repartidas por 5 campos nos arredores de Goma, à espera. Começaram a chegar há dois anos. O último grande fluxo foi há 5-6 meses atrás. Habita-se uma terra que não é a própria. Vive-se num estado que parece ser de morte. Uma morte que, se tem a certeza internamente, não tem nem terá a última palavra. Um estado de espera, alicerçado numa esperança posta na fidelidade de Deus que, sem sabermos nem quando nem como, da morte fará brotar de novo a Vida! Porque Ele é Deus unicamente da Vida! Gente de Sábado Santo! 26 de Abril Tempo pascal
Uma coisa se intensifica quando se toca tanta dor: que no Cristo Ressuscitado vive intensamente o Cristo Crucificado! Ele é a força da esperança na dor absurda e imensa! Vai longa esta carta! Fica muito aquém do que tenho a graça de viver. Peço ao Senhor, vivo no meio de nós, a graça de que a nossa vida seja, onde quer que a vivamos, gasta como a gastaram Pedro e João e como nos narrou a Igreja durante a primeira semana de Páscoa: “- Prata e ouro não tenho, mas o que tenho te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, põe-te a andar”. Pegou-o na mão direita e o levantou. No mesmo instante, pés e tornozelos se robusteceram, ergueu-se de um salto, pôs-se a andar, e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus. […] “- Israelitas, por que ficais olhando para nós como se tivéssemos feito esse homem andar com o nosso próprio poder e religiosidade? […] Pois conste a todos vós e a todo o povo de Israel que foi em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem crucificastes e Deus ressuscitou da morte. Graças a Ele, este homem está curado em vossa presença” (Act. 3-4). Boa Páscoa! Irene Guia,aci |